Realidade invisível

Publicado em 29/05/2013

0


Uma porta é arrombada. Diante dela estão uma equipe do corpo de bombeiros e o chefe de polícia, que entram na residência a procura de alguém. Um plano-sequência mostra o chefe de polícia andando pelos cômodos da casa enquanto homens do corpo de bombeiros tentam arrombar a porta trancada do que parece ser um quarto. O chefe força a entrada ao quarto por outra porta, sem no entanto obter qualquer êxito. Abre, então, as janelas para permitir a circulação do ar, que parece irrespirável – é o que dá a entender a movimentação dos brigadeiros com máscaras no rosto pelos cômodos da casa. O plano focaliza o chefe de polícia, pensativo, que é logo surpreendido pela advertência dos bombeiros: “A porta está aberta”. Em seguida, vai até o quarto. A câmera desce lentamente do rosto do chefe de polícia até o corpo de uma mulher que jaz sobre uma cama, e se detém nela. A mulher está ornada com todos os artifícios típicos de um funeral: flores ao redor do rosto maquiado, posição dos braços sobre o ventre, roupa impecável. Assim começa o filme Amour, de Michael Haneke.

Com Amour, Haneke repete o reconhecimento do público e da crítica do aclamado A Fita branca (2009), conquistando a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 2012, e dá mais um passo na carreira ao levar em 2013 o Oscar de melhor filme em língua estrangeira.

O filme conta a história da vida íntima do casal Georges e Anne (interpretado brilhantemente por Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva), mas o faz sem apelar para os modelos românticos estereotipados da maioria das abordagens cinematográficas ou literárias do tema. Isso fica bem claro já no perfil dos protagonistas – octogenários, tendo dedicado suas vidas à música, aproveitam boa parte do tempo que lhes resta indo a concertos, lendo livros, conversando sobre assuntos variados, motivados na sua maior parte por lembranças de situações vividas no passado. Num dado momento, Anne é acometida por um derrame cerebral e ambos passam a ter de enfrentar juntos o medo da proximidade da morte. Depois de diagnosticado o problema de Anne, a vida do casal inicia um novo processo de conhecimento mútuo, que alterna momentos de força e de fraqueza de ambos para lidar com a situação limite em que vivem, marcada por um misto de amor, culpa, resignação, dedicação, solidariedade, esperança, desespero.

Um dos traços mais marcantes dessa premiada obra de Haneke é o silêncio. Este pode parecer um fato curioso para um filme cujos protagonistas têm a música como um dos principais elementos em comum. É ele que permite a realidade mostrada na tela se desdobrar e lançar o espectador a uma dimensão psíquica inquietante, porém plena de sentido, convidando-o a uma experiência reflexiva do drama vivido pelo casal. Em Amour, o silêncio não apenas indica ausência de trilha sonora. É também o responsável por contar uma história invisível que se passa na mente dos protagonistas, mas também na do espectador, se este se permitir emocionar e refletir profundamente sobre o dilema que perturba Georges e Anne. Os trechos dessa história invisível são parcialmente sugeridos em algumas passagens do filme que mostram um e outro pensativos, em estado de misteriosa reflexão. São nesses momentos que a verdadeira história de Amour é contada, no silêncio desses instantes em que não sabemos o que exatamente se passa na mente de Georges e de Anne. Somos, então, levados a construir parte crucial dessa história, fato que será determinante para a compreensão da significação do filme.

Ao dar ao amor dimensões pouco convencionais, Haneke leva o espectador a examinar regiões da consciência onde se formam suas crenças mais sedimentadas. Resta saber se ele o suportará. ▣

Francisco Merçon é professor e ensaísta. Mestre e doutor em Semiótica e Linguística Geral (USP), publica em periódicos acadêmicos, jornais e revistas de notícias e no blog (<pensarporescrito.tumblr.com>).

About these ads